quarta-feira, 16 de maio de 2012

Arte e Morte - Soneto



A arte a todos pertence
A morte a todos aguarda
Não há distinção de classe
A qualquer povo é sagrada

Todo ser anseia por arte
D’outro jeito a alma perece
Tal como o medo da morte
Nutre o coração que cresce

São essas duas obscuridades
Que vencem o nojo e a avareza
É o puro amor pela beleza

Carente de espírito e sorte
O mundo que luta e reluta
Em abraçar a arte e a morte


Gabriel Aquino

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Oculpa-te


Culpa-se: dizia o anúncio
E o muro estava pintado de gente
Todos lendo atentamente
O novo anúncio - inovador

Aos poucos saíam grupos
e seguiam seus caminhos
Dando espaço para outros
Adentrarem o burburinho

O fato é que:
no lugar do "Ocupa-se", tradicional
Havia outra palavra mais atraente
E muito menos repelente

Ai, aquele muro singelo
Quase sem utilidade, se não lhe colassem
Nos tijolos vermelhos, olhos amarelos
Anúncios diversos que o ocupassem

As pessoas, todas alfabetizadas
Treinadas para ler e obedecer caladas
Foram aos seus trabalhos, suas casas
Disseminando a mensagem

Culpado! Gritavam em frenesi
Buscando pelo quê e a quem culpar
Aos colegas, pelas falhas
Aos chefes, pelas migalhas

Aos parentes, à polícia, ao prefeito
Ao presidente, aos políticos, de aberto peito
Às prostitutas, aos mendigos
Aos fracos e oprimidos

Não lhes importava a classe social
Nem o poder nas mãos do alvo
A garatuja vangloriava-se em culpar
Sentido a liberdade ao estravasar

O sofrimento, que haviam sentido
O couro grosso, pela vida curtido
Oculpavam-se
Felizes indivudalmente

No dia seguinte
Como faziam todas as manhãs
Os cidadãos voltaram ao muro
Ansiosos pelas próximas instruções

Depararam-se com uma ordem inesperada
Observavam uns aos outros, de relance
Comprimiram os olhos amarelados
Ouviram seus corações palpitantes

Uma luta interna iniciou-se
Ocupar-se-iam, coletivamente
Este dia foi o mais silencioso
E, no seguinte, a maior surpresa

Um outro anúncio misterioso
Pendia também do muro
Mais pessoas conseguiam ler
Mais gente a se aproximar

O anúncio era composto de outro papel
Mas da mesma palavra
E, no dia seguinte, um igual foi colocado
Mais pessoas puderam ler

Dia após dia o vermelho do muro
Era ocultado por mais folhas iguais
E os olhos, menos amarelos
De seus leitores, menos barulhentos

Chegou finalmente o dia
Em que cada tijolo era uma palavra
O muro fora finalmente preenchido
E a cidade dormia quando aconteceu

Sobre cada família: um teto
E toda criança calçada
Em toda mesa o café quente
E toda mente despertada

Passavam pelo muro: todos
Antes de qualquer atividade
Era para o povo uma oração
Unidos, diante do milagre

Da palavra última
Pouco diferente da anterior
Nos papéis dizia "Culpa-te"
E o mundo inteiro transformou


Gabriel Aquino

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O menino que rendia sorrisos foi ser feiz

E o menino que rendia sorrisos, chorou

Num banco qualquer de praça, onde a vida simples se apresentava,

Nem o ballet da ave rara o resgatou da caverna escura e fria como a dor da noite.

Ele, que exalava perfume na doçura de suas palavras, nada mais escutou,

Desfeita a alegria, o ziguezague do nobre-vagabundo retratou a inquietude da sua alma, agora tão desencontrada.

No mal-me-quer e bem-me-quer, na montanha russa, nos tabuleiros da roleta da fortuna, jogou.

Nada ganhou.

Desperto, voando para dentro de si, examinou-se,

Resignificou o mundo a sua volta,

Se redescobriu.

Apostou seu mais alto capital para libertar-se.

Renunciou, sem hesitar.

Pactuou com o Sagrado,

E encontrou no amor, a cura.

Entregou-se por inteiro, verdadeiramente, à vida. E foi ser feliz!



Adriana Sangalli

sexta-feira, 6 de abril de 2012

À Distância

Longe, tão longe...

Amar à distância não é fácil.
Não carece só de amor e paciência.
Requer uma conjuntura espiritual na qual não importa o que a razão diga nem o quanto o coração reclame,
a gente simplesmente não consegue se deixar.
Às vezes, de tanto sofrer, a gente acaba tentando, mas logo se arrepende.
Tem alguma coisa, algum magnetismo misterioso que nos mantém juntos,
apesar de separados.
Amar à distância é como viver antigamente e estar prometido, fazendo seus planos ao redor da pessoa amada.
Tem gente que não acredita em relacionamentos à distância.
Fazem bem... Nem eu acredito!
Não no relacionamento à distância, mas no futuro em que estaremos juntos.
Enamorar-se à distância é baseado em esperança, não em tolice.
Há quem diga que ter esperança é ser tolo.
Esse, provavelmente, nunca recebeu a recompensa de esperar.
O rever depois de tanto tempo.
A ansiedade que precede o encontro.
O prazer do beijo e do olhar apaixonado, como se fosse a primeira vez.
E o abraço, tão firme e forte, demonstrando a vontade de unir os dois corpos num só,
pra ficar pra sempre bem pertinho.

Perto, tão perto...


Gabriel Aquino

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Direito ao Avesso

Não opera, pensa
Vai, e pega o teu direito
Vira-o do avesso


Gabriel Aquino

Do amor

Do amor nada se fala
Sem palavras se expressa
E quem tenta, só resvala
E aos conceitos regressa

O amor não é bom
Ou mal, tampouco
Não é rosa nem marrom
Sua cor, na realidade
É a do gemido rouco
De quem morre de saudade


Gabriel Aquino

Vírgula e Ponto

Ai ai, saudade
Vírgula
Preenche o vazio
Entre um encontro
E outro

O coração não pode
Nunca
Ficar parado
Tem que sentir
Alguma coisa

Se é tão
Natural,
Porque é que
Dói tanto?

Pelo medo que temos
De deixar de ser
Vírgula
E transformar-se em
Ponto


Gabriel Aquino